O aCena Recifense bateu um papo especial com Vivian Marvel. A artista é dançarina, compondo o balé da cantora Uana, arte educadora e agente cultural territorial do Ministério da Cultura. Confira!
O ENCONTRO COM A DANÇA
“Tudo começou porque minha mãe queria que eu gastasse energia (eu falava sem parar, risos), então comecei, aos 6 anos, no frevo. Eu também sempre fiz parte do candomblé, então naquele meio eu frequentava rodas de coco. Também tive muito contato com o xaxado, forró… sempre fui muito apaixonada pela cultura popular de Pernambuco e isso é uma coisa muito valiosa pra mim. Dancei em projetos sociais, vivi o coco, cavalo marinho… Mas para além disso, também me inspirava em artistas de fora, como Beyoncé. Ela foi minha primeira referência de twerk. Depois disso, foi o trabalho de Dani Costa que mudou minha vida!”
“Nesse período da adolescência, descobri um problema no joelho que me impossibilitou de fazer o que eu gosto por um tempo, me deixando sem poder andar. Tive que fazer fisioterapia e isso tudo me fez ter que repensar meu futuro em relação à dança, pois achei que ia precisar parar de fazer o que eu gostava. Na época isso foi gerando um terror muito grande quanto à minha condição e ninguém conseguia me trazer uma saída para eu continuar com esse meu sonho. Tive que procurar um sentido que me permitisse seguir fazendo o que eu gosto enquanto cuidava de mim e da minha saúde, e no final deu certo!”
APRENDENDO E ENSINANDO
“Tive muitos professores e inspirações na vida que me ajudaram a chegar nesse espaço que eu ocupo e é muito importante para mim ver que minhas inspirações hoje são as pessoas que estão ao meu redor, as pessoas com quem eu trabalho e as que eu ajudo a formar enquanto professora. Ver e direcionar os novos talentos para uma carreira sólida faz parte de uma questão muito importante quando penso na trajetória que tive para chegar onde eu estou hoje.”
“Como mulher negra, a sociedade muitas vezes nos coloca como indignas de liderança, mas minha espiritualidade, sobretudo Exu, me ensinou que tenho algo a comunicar. Ainda sinto medo de errar, mas aprendi que errar é humano e necessário. Hoje, meu trabalho me permite inspirar minhas alunas e articular muita coisa, como o programa de bolsas que criei, devolvendo o que recebi, já que toda minha formação foi com bolsas. Ainda é pouco comparado a o que eu quero fazer, mas a gente precisa começar de algum lugar! Fazer a diferença, inspirar outras pessoas, ver meu trabalho dando certo é muito importante para mim e para outras pessoas também!”
“Parando pra pensar, eu já cogitei desistir muitas vezes! A gente sabe que ser artista exige uma força, uma vontade maior de fazer as coisas acontecerem e hoje eu consigo ser essa pessoa que faz as coisas acontecerem!“
A PARCERIA COM A CANTORA UANA
“No início dessa ascensão da fase profissional, estar com Uana me abriu muitas portas. Desde 2021, quando começamos juntas, participei de diversos clipes e festivais como Batekoo Festival e Favela Sounds, além de poder ter ocupado muitos outros palcos! O pop nordestino, como o feito por Uana, foi um grande refresco para mim, porque cresci consumindo muita cultura local e estadunidense, então quando o pop daqui ganhou força, senti que era exatamente o que faltava!”
“Quando eu tô no palco tudo se transforma: ganho coragem e uma energia diferente. O palco traz uma magia, e eu acabo fazendo coisas que não faria fora dele. No palco eu costumo dançar, apontar, gesticular muito e depois as pessoas acabam me contando que ficam intimidados, mas esse é o objetivo da dança: quando tô naquele momento, gosto de provocar as pessoas nesse sentido!”
A CENA DA DANÇA NO RECIFE
“Eu vivo a cena de Recife, tenho muitos amigos nesse meio e acho que consigo afirmar que existe apoio e união. Ser unido não significa pensar igual, pois podemos ter ideias diferentes e ainda assim se apoiar enquanto cena. Tenho como exemplo as meninas do Twerk Recife. Somos diversas, cada uma tem um perfil, um estilo diferente, mas gente conversa entre si. Nem sempre a gente vai concordar em tudo ou estar presente em tudo, as vezes a gente briga, mas isso é normal. Acho que isso torna a experiência melhor: a gente ter toda essa diversidade e mesmo assim, no fim, se apoiar de perto ou de longe.”
O FUTURO DE VIVIAN MARVEL
“Nos próximos anos quero executar muitas coisas! Em 2026, teremos o “Trilhas da Pelve”, projeto com oficinas em todos os Compaz de Recife, e também a 2ª Mostra de Danças Pélvicas. Pretendo circular com espetáculos, reforçar a identidade pernambucana dentro das danças urbanas e seguir formando novas professoras! Paralelamente, quero ocupar espaços de gestão pública cultural, para melhorar a organização e a distribuição de recursos. Acho que não faz sentido falar sobre mudança dentro da área da cultura e continuar perpetuando essa concentração de verbas e essa desvalorização de muitos aspectos da cultura pernambucana. É isso que me vejo fazendo mais a frente!”