E o nosso papo dessa semana é com a DJ, cantora e produtora da Subterrânea Prod, Mare!
🎸 Destaque na cena gótica e alternativa da cidade, a artista compartilhou um pouco da sua trajetória e projetos com o aCena! Confira:
1. Como a arte surgiu na vida de Mariana Vieira e de que forma você se iniciou no mundo artístico?
Não consigo apontar exatamente um momento em que a arte surgiu na minha vida porque, desde muito pequena, tanto pelo que eu lembro quanto pelo que me contam, eu já me expressava de formas muito ligadas à estética e à criatividade. Era algo natural para mim.
Nasci e cresci em Paulista, Pernambuco. Durante a adolescência, esse interesse se tornou ainda mais evidente. Eu consumia muita música, passava horas assistindo à MTV, descobrindo bandas e videoclipes, além de acompanhar revistas e colecionar CDs. Sempre gostei de experimentar por meio da minha própria imagem: pintava o cabelo, me maquiava, fotografava esses processos e criava minhas próprias roupas e acessórios. A estética nunca foi apenas aparência para mim, era uma forma de construir identidade.
Também vivi intensamente a internet dos anos 2000. Fiz parte da geração do Orkut, do Fotolog e dos blogs. Por volta de 2008 e 2009, ainda adolescente, eu já escrevia sobre moda, arte, cultura e comportamento dentro das subculturas que me interessavam. Utilizava esses espaços para compartilhar referências, trocar ideias e conhecer pessoas com interesses parecidos. Hoje percebo que aquilo já era uma forma de produção cultural e comunicação, mesmo que eu ainda não enxergasse dessa maneira.
Quando entrei na faculdade de Publicidade e Propaganda, aos 17 anos, ainda não tinha clareza sobre qual caminho profissional seguir. Eu sabia que gostava de moda, cultura, música e arte, mas não sabia exatamente como direcionar tudo aquilo que ocupava minha cabeça. Acabei escolhendo a comunicação porque, de certa forma, já fazia isso intuitivamente desde os 12 ou 13 anos. Escrever, pesquisar, observar comportamentos e construir narrativas eram atividades que já faziam parte da minha rotina.
Durante a graduação, fui me aproximando cada vez mais de pessoas ligadas às artes visuais e à produção cultural, entendendo que meus interesses estavam justamente na interseção entre arte, comunicação e cultura. Aos poucos, comecei a perceber que não precisava escolher apenas uma linguagem para me expressar.
Depois da faculdade, me mudei para o Sul do Brasil, onde vivi por alguns anos e trabalhei em agências de publicidade. Foi uma experiência importante para minha formação profissional, mas meus interesses continuavam os mesmos. Eu seguia descobrindo artistas, acompanhando videoclipes e mantendo contato com cenas alternativas pela internet. Morando em Gramado e Canela, cidades menores, esses espaços digitais se tornaram ainda mais importantes para manter contato com universos culturais que me inspiravam.
Durante a pandemia, a música passou a ocupar um espaço ainda mais central na minha vida. Como todo mundo, vivi um período de isolamento intenso. Comprei uma guitarra, já tinha um baixo e um violão em casa, e comecei a praticar constantemente. Gostava de tocar as músicas que escutava, experimentar e compreender melhor os instrumentos por meio das sonoridades que sempre me acompanharam. Meu repertório como ouvinte sempre foi amplo, passando pela música brasileira, por diferentes estilos e cenas musicais, mas sempre tive uma conexão especial com o post-punk, o punk, o dark wave e algumas vertentes do metal e do hardcore. Na adolescência, também fui muito marcada pela música emo, que teve um papel importante na construção da minha identidade.
Foi nessa época que comecei a compor, ainda de forma muito íntima, dentro do meu quarto. A música deixou de ser apenas algo que eu consumia e passou a ser também uma ferramenta de criação e expressão pessoal. Hoje percebo que, muito antes de me tornar DJ, eu já vivia a música de diversas formas: ouvindo, estudando, tocando e criando.
Quando retornei para Recife, fui convidada para discotecar no Lesbian Bar, que há anos havia deixado de ser um bar e se tornado uma festa itinerante realizada no IRAQ. A partir dessa experiência, começaram a surgir novos convites para festas e eventos, e foi nesse momento que minha trajetória na música ganhou forma de maneira mais concreta.
Olhando para trás, percebo que não houve exatamente um momento em que a arte entrou na minha vida. Ela sempre esteve ali. O que mudou foram as formas por meio das quais eu a expressava: primeiro através da estética, depois da escrita, da comunicação, da música, e, mais tarde, como DJ e produtora cultural. Tudo o que faço hoje é consequência de um caminho que começou muito antes de eu imaginar que trabalharia com arte.
2. O que te trouxe para o lado “gótico” da arte?
É engraçado falar sobre o lado gótico da arte porque, para mim, tudo foi muito natural. Desde muito nova, sempre me senti atraída por referências mais obscuras, melancólicas e introspectivas, tanto na música quanto na estética.
A música foi a principal porta de entrada. Meu pai ouvia muita música dos anos 80, e isso acabou sendo uma influência importante. Eu sou de 1995, então cresci ouvindo muitas dessas referências dentro de casa, o que mais tarde me levou a descobrir bandas que abriram as portas desse universo para mim, como The Cure e Joy Division, ainda no começo da adolescência. Eu passava horas ouvindo música, lendo sobre artistas e descobrindo novas sonoridades. Com o tempo, a internet ampliou esse processo, permitindo que eu mergulhasse em estilos como post-punk, dark wave, death rock e outras vertentes que dialogavam com essa sensibilidade que eu já carregava.
Mas minhas influências não vieram apenas da música. O cinema, a moda, a literatura e as artes visuais também tiveram um papel importante nessa construção. Sempre gostei muito dos filmes de Tim Burton, da Família Addams e das atmosferas sombrias e sensíveis que cercam esse universo. Na literatura, tive contato, ainda muito jovem, com clássicos como Drácula, de Bram Stoker, e outras narrativas que despertavam meu interesse por personagens e universos que fugiam do convencional.
Com o passar dos anos, essa relação se tornou mais profunda. Depois comecei a estudar mais sobre a história da cultura gótica, sua literatura, suas manifestações artísticas e seus desdobramentos culturais. Isso me fez compreender que ela vai muito além de uma aparência ou de um gênero musical específico.
Claro que a estética teve seu papel. O preto, determinadas referências visuais e algumas formas de expressão acabaram fazendo parte da minha identidade ao longo dos anos. Mas, para mim, tudo isso sempre veio da arte e da música primeiro. A maneira como eu me vestia era consequência das referências culturais que eu consumia, e não o contrário.
Ao mesmo tempo, eu nunca me senti parte de uma única cultura. Frequentava festas góticas quando era mais nova, mas também transitava por diferentes cenas, sonoridades e grupos. Sempre tive curiosidade por manifestações culturais diversas. Talvez por isso eu nunca tenha me sentido completamente definida por um único rótulo.
O que me conecta ao universo gótico até hoje não é apenas uma questão estética, mas uma afinidade com determinadas atmosferas, emoções e formas de enxergar a arte. Minha trajetória foi construída justamente por meio dessa mistura de influências e da liberdade de transitar entre diferentes universos culturais.
3. Nos conte um pouco sobre como surgiu a sua produtora, a Subterrânea. Qual o impacto que você considera que a mesma tenha na noite pernambucana?
A Subterrânea surgiu em 2023, mas sua origem começou um pouco antes. Na época, eu já atuava como DJ e participava de diferentes festas e eventos da cena recifense. Ao mesmo tempo, sentia que existiam algumas lacunas na noite que eu frequentava, tanto em relação às sonoridades que me interessavam quanto aos espaços de protagonismo dentro da própria cena.
Minha primeira experiência com produção aconteceu antes mesmo da criação da Subterrânea, ao lado de Luísa Cunha, quando realizamos a Riot Grrrl Night no IRAQ, uma ação especial para o Dia das Mulheres com line-up formado exclusivamente por mulheres DJs. Foi uma experiência importante porque despertou em mim o interesse pela produção cultural e me mostrou que eu também queria participar da construção desses espaços, e não apenas ocupar o line-up deles.
A partir dessa experiência, nasceu a vontade de criar algo próprio. A Subterrânea foi construída com a colaboração de várias pessoas ao longo do processo, entre elas Brüxä Noise, Chaos, Bagae, Moon Moon, Belladonna, Vicente Marinho e outros parceiros que contribuem em diferentes momentos. Mas, desde o início, eu estive à frente da coordenação e da direção do projeto, papel que continuo exercendo até hoje.
A primeira festa da produtora foi a Morphine, influenciada pelo universo gótico, pelo post-punk, pelo dark wave e pela interseção dessas sonoridades com linguagens da música eletrônica, como o hard techno. Essas referências acabaram servindo como ponto de partida para a construção da identidade da festa.
Com o tempo, porém, a Subterrânea desenvolveu sua própria linguagem e passou a criar pontes entre diferentes expressões artísticas e musicais, ocupando um lugar próprio dentro da noite recifense.
Quando penso no impacto da Subterrânea, acredito que ele está em fortalecer uma cena que sempre existiu, mas que muitas vezes acontecia de forma dispersa ou à margem dos espaços mais tradicionais. Ao longo desses anos, venho buscando conectar artistas, públicos e diferentes expressões culturais, criando visibilidade para novas narrativas e ampliando o protagonismo de mulheres, pessoas trans, dissidências e artistas independentes.
4. Agora nos conte um pouco sobre as festas promovidas pela produtora.
As festas da Subterrânea compartilham uma mesma visão, mas cada uma possui sua própria identidade. Desde o início, meu interesse nunca foi criar eventos focados em uma única cena ou gênero musical, mas construir espaços onde diferentes referências musicais, estéticas e artísticas pudessem dialogar entre si.
A Morphine foi a primeira festa e talvez seja a que melhor represente essa proposta. Ela nasceu da interseção entre o universo gótico, o post-punk, o dark wave e diferentes vertentes da música eletrônica. Com o tempo, cresceu bastante e passou a funcionar quase como um festival, abrindo espaço para artistas emergentes, artistas em ascensão e também nomes de grande relevância dentro dessas cenas. Além de Recife, a Morphine já aconteceu em João Pessoa, Natal e Fortaleza, ampliando a circulação de artistas e fortalecendo conexões entre diferentes cidades do Nordeste.
A Vampire surge de um lugar mais performático e imersivo. Ela dialoga com referências da cultura gótica, da música eletrônica e também do universo BDSM. Acontece exclusivamente no Nyx Bar, um espaço voltado para o público alternativo e fetichista. É uma festa onde performance, liberdade de expressão e construção de atmosfera têm um papel tão importante quanto a música.
Já a G.G.G, sigla para Garotas, Gays e Góticos, nasceu da vontade de misturar referências da cultura pop, da cultura queer e da cultura gótica em um mesmo ambiente. É uma festa irreverente, acolhedora e cheia de personalidade, que traduz bem essa liberdade de transitar entre diferentes influências.
Também tivemos a Avantgarde, que explorava uma mistura ainda mais ampla de estilos musicais de décadas passadas, e a Dance Fatal, que surgiu a partir de uma celebração dos 50 anos de The Rocky Horror Picture Show e atualmente está em sua terceira edição. O que começou com uma exibição do filme seguida de uma discotecagem acabou evoluindo para uma festa própria, reunindo DJs e sonoridades que passam pelo electroclash, new wave, EBM, industrial e outras vertentes marcadas pela presença dos sintetizadores.
Apesar das diferenças, todas essas festas compartilham algo em comum: a vontade de criar experiências onde música, estética e performance caminham juntas. Mais do que eventos, elas funcionam como espaços de encontro para pessoas que circulam por diferentes cenas, mas compartilham o interesse por experiências artísticas mais livres, criativas e imersivas.
5. Como nasceu o projeto Neokroma? Nos conte um pouco sobre a proposta do grupo.
A Neokroma nasceu em março de 2026, a partir de um encontro entre vontades criativas que já existiam há algum tempo. Eu já mantinha uma relação com a composição, como citei anteriormente, mas era algo que ainda permanecia bastante íntimo. Compartilhava algumas coisas com amigos próximos, mas nunca havia transformado esse processo em um projeto público.
Foi nesse contexto que surgiu a parceria com Kaos. Além de já desenvolver um trabalho artístico próprio, ela também tinha o desejo de criar algo novo. A partir das nossas conversas e afinidades criativas, começamos a pensar em uma trilha sonora para uma performance fetichista que aconteceria dentro da Vampire.
A ideia inicial era criar apenas algumas músicas para essa apresentação. Mas o processo criativo aconteceu de forma tão intensa e natural que rapidamente percebemos que estávamos construindo algo maior. O que começou como uma colaboração pontual acabou se transformando na Neokroma.
Curiosamente, o caminho foi quase inverso do que costuma acontecer. A Neokroma não nasceu como um projeto musical que depois incorporou elementos performáticos. A performance está presente na sua origem e continua sendo uma parte importante da sua identidade.
Nosso primeiro EP gira em torno de temas como relações afetivas complexas, rupturas, desejo, vulnerabilidade e transformação. Também existem referências ligadas à sensualidade, ao erotismo e às dinâmicas de BDSM, elementos que fazem parte das nossas vivências e aparecem de forma orgânica dentro do projeto. Tudo isso atravessado por uma estética que dialoga com diferentes referências da música eletrônica. Nesse primeiro EP também contamos com a participação de Jasmine Gurgel, artisticamente conhecida como Belladonna, no processo criativo.
Nas apresentações, buscamos explorar diferentes linguagens além da música. Em alguns momentos, a performance dialoga com práticas como shibari e wax play, utilizados como elementos cênicos que ajudam a construir a narrativa e a atmosfera de cada apresentação. Para nós, som, corpo e performance fazem parte de uma mesma experiência artística.
Mesmo sendo um projeto muito recente, a resposta do público tem sido surpreendente. Já realizamos três apresentações: a estreia aconteceu na Vampire, depois dividimos palco com a Vera Fischer Era Clubber e, mais recentemente, levamos o projeto para Salvador, na Obscura Club. Cada apresentação tem contribuído para consolidar a identidade da Neokroma e apontar novos caminhos para o projeto.
Neste momento estamos em fase de lançamento do EP, acompanhado de videoclipe e outros desdobramentos que ainda estão em construção.
E aproveito para compartilhar essa informação em primeira mão: nosso trabalho de estreia se chama Rituais Profanos I: Desejo e Sofrimento. O EP reúne muitas das temáticas que atravessam o universo da Neokroma e funciona como uma introdução ao imaginário que estamos desenvolvendo.
Ainda existe muito espaço para experimentação dentro do projeto, e talvez essa seja uma das características que mais me empolgam. A Neokroma nasceu da vontade de transformar ideias, sentimentos e experiências em música, mas também da liberdade de descobrir, ao longo do caminho, tudo aquilo que ainda pode se tornar.
6. O que podemos esperar do futuro de Mare? Quais projetos, metas e planos podem ser compartilhados com o público?
Acho que meu futuro passa muito pela continuidade e pelo crescimento dos projetos que venho construindo nos últimos anos. A Subterrânea, por exemplo, ainda tem muito espaço para se desenvolver. É um projeto que carrega bastante ambição, não apenas no sentido de crescer, mas de continuar fortalecendo a cena que se formou ao seu redor.
Quero ampliar o alcance das festas, circular por novos espaços, alcançar novos públicos, criar oportunidades para artistas que dialogam com esse universo e também inspirar e abrir espaço para quem quer começar. Mas sempre preservando a identidade que fez a Subterrânea se tornar o que é hoje. Crescer é importante, mas sem perder a liberdade criativa e o caráter coletivo que sempre estiveram presentes no projeto.
Como DJ, também pretendo continuar expandindo meu trabalho. Nos últimos anos tive a oportunidade de tocar em diferentes cidades e circular por várias regiões do país. Quero seguir aprofundando esse caminho, levando minhas pesquisas e repertórios para novos contextos e experiências.
Já a Neokroma representa uma fase muito especial da minha trajetória. É um projeto recente, mas que já nasceu com intensidade e muita vontade de experimentar novas linguagens. Estou muito animada em viver esse desenvolvimento, lançar novos trabalhos e explorar tudo o que ainda pode surgir a partir disso.
Talvez o que mais me empolgue hoje seja justamente acompanhar o amadurecimento de tudo isso. Ver os projetos crescendo, alcançando novas pessoas e gerando novos diálogos.
No fim das contas, espero continuar fazendo aquilo que sempre me moveu: pesquisar, criar, experimentar e contribuir para uma cena cada vez mais diversa, viva e aberta a novas possibilidades.