aCena Recifense entrevista Josildo Sá

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Dando continuidade a nossas entrevistas especiais de São João, batemos um papo com Josildo Sá, ícone do samba de latada e do forró pernambucano. Confira!

Como a música surgiu na vida de Josildo Sá?

R: “A música está presente no sangue. Eu sou filho de um sanfoneiro, Agostinho do Acordeon e minha mãe biológica também sempre foi muito musical. Eu nasci em Floresta, mas fui adotado em Tacaratu por um casal, seu José e dona Inês. Lá eu pude conviver com as latadas, as danças, as festas e os cocos. Na cidade havia uma difusora no local onde toda tarde passava todo tipo de música: Wanderléa, Roberto Carlos, Amado Batista, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Azulão… toda minha infância e adolescência foram ouvindo isso. Depois veio o Cazuza, Lobão, Elis Regina… Fato é que eu não estudei música. A música veio dessas formas: do ouvido e do sangue. Eu canto e componho aquilo que eu vejo, aquilo que me apaixona, aquilo que me chama a atenção.”

Não faço nada pensando no sucesso, pois eu não sei fazer sucesso, eu sei fazer música, eu sei fazer canções, e fazer sucesso, tudo bem, eu adoraria, mas eu não faço na intenção disso. Eu tenho a intenção de poder dizer aquilo que eu sinto e penso desse mundo. Meu intuito é passar por aqui e deixar meu legado para que as pessoas saibam que um ser humano comum como eu pode ser artista, pode viver da arte. Se tem talento, invista nisso! Agora eu fiz 60 anos e ainda acho que posso melhorar muito, que posso fazer coisas melhores.”

O início da carreira

R: “Fui vendedor por muito tempo e em todo lugar que eu chegava, eu cantava. Mas só no final dos anos 90 que eu comecei a trabalhar profissionalmente, depois da morte de Chico Science. Se Chico não tivesse morrido, talvez eu não teria me tornado um artista profissional. Eu pensava: ‘meu Deus, um cara tão massa desse, que levantou tudo em Pernambuco, que misturou rock and roll com maracatu, que mexeu com as estruturas, foi embora tão cedo! De repente, eu vou embora cedo também! Então vou entrar nessa pois eu também tenho essa energia de transformar, de modificar, de falar aquilo que eu penso!’, então foi daí que eu larguei tudo e fui seguir a carreira. Com a música, há 27 anos eu sustento a minha família.”

A versatilidade sonora de Josildo Sá

R: “Eu gosto de fazer tudo, mas não fazer tudo por fazer. Sou um cara bem inquieto, então a música que eu faço é uma música que passeia por uma personalidade intensa, que não fica restringida em um gênero só, que quer passear por aí, conhecer coisas diferentes e fazer coisas diferentes. Já fui chamado de ‘o forrozeiro do mangue’, pela maneira que eu cantava, pulava, interpretava… pois era rock’n’roll puro, mesmo eu cantando forró. Hoje eu não pulo mais, estou com 60, o joelho já não aguenta mais essas coisas todas, mas a intensidade com que eu canto e a emoção que eu passo continuam. Eu choro no meio do palco o tempo inteiro porque eu amo fazer isso!”

Homenageado no São João de 2020 do Recife e sua relação com a festa

R: “Olha, eu me senti grandioso. A homenagem ocorreu em 2020, em plena pandemia. Fui homenageado reconhecidamente, homenageado pelo trabalho que eu venho fazendo. Então a Prefeitura do Recife entendeu que eu era um cara que merecia essa homenagem, o que me motivou muito a lutar ainda mais porque ser reconhecido na capital mesmo não sendo daqui é uma coroação, é uma medalha, é um campeonato que eu ganhei. As vezes a autoestima vai lá para baixo, por motivos do dia-a-dia, então eu começo a pensar nessas conquistas.

O espaço da cultura popular no São João

R: “Sinto que estamos sendo bombardeados por estilos musicais que não tem a ver com o São João, estilos que podem tocar o ano inteiro e tocam. Então por que não valorizar mais o forró? Não sei se o cachê desses artistas são pagos por um patrocinador qualquer ou é dinheiro do estado, mas um artista que não é da época junina tocando por um milhão de reais pode fazer com que forrozeiros e forrozeiras excelentes, que fazem a festa com mestria e são autênticos da época, não sejam contratados. Fomentar a nosso cultura, a nossa tradição é um dever do estado! Inclusive, não estou dizendo que artista A ou artista B não valha um milhão de reais, pois também sei que esses artistas levam muita gente para as cidades fomentando o turismo, mas temos que valorizar e investir nos nossos artistas. O povo gosta de forró tradicional e o forró nunca morrerá, pois ele é quem dá sustentação a muitos outros ritmos que estão aí na moda, como o piseiro, o forró estilizado e por aí vai.”

A agenda de São João

R: “Esse ano eu vou passar por Salgueiro, Triunfo, Tacaratu, Recife… Inclusive, no Recife, eu vou cantar no Shopping Center Recife e falo isso pois está sendo muito importante a intervenção dos shoppings contratando os artistas do forró. Ainda estão surgindo convites para mais shows, além de estar com algumas datas em aberto. Estou preparado, com uma banda maravilhosa, com uma equipe muito boa de produção e com um repertório bem legal para cantar!”

O single “Céu de Botequim”

R: “A produção dessa música é de um grande amigo, irmão e mentor, que é o Anchieta Dali, grande poeta e produtor maravilhoso, enquanto a composição é de Djalma Félix e Carlos Villela. A música fala sobre o boêmio, evocando o malandro do sertão, que não é um malandro desonesto, mas um malandro que gosta de viver, de ser feliz, de namorar, de estar nas boêmias e nas mesas de bar, cantando… Então gostei muito da música e acabei gravando. Eu tenho cantado muito essa música pois realmente acho ela muito boa e com uma letra muito forte. Tem cavaquinho, violão de sete cordas, pandeiro, clarinete… é um samba bem tradicional, bem legal.”

O futuro de Josildo Sá

R: “O futuro pertence a Deus, com certeza, mas estou com algumas novidades! Agora, com uma equipe, vou lançar todos meus projetos antigos todos nas plataformas de stream. Paralelamente a isso vou lançando coisas novas também. Estou com um novo projeto chamado ‘Josildo Sá Instigado’, produzido por Yuri Queiroga lá em São Paulo. Já gravamos cinco música e em outubro devo gravar mais cinco. Também estou compondo muito. Estou com umas 40, 50 músicas, pra poder ir lançando durante a vida inteira. Além disso, estou começando a escrever o meu livro, porque eu tenho muita história pra contar. Graças a Deus não falta com o que trabalhar! O futuro é muito movimentado e eu não paro de trabalhar.”

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