O aCena Recifense bateu um papo especial com a dançarina, produtora musical e DJ, Soly! A artista relembrou sua entrada no mundo do brega funk, destacou as nuances do ritmo e fez reflexões importantes sobre o apagamento da comunidade LGBTQIAPN+ no movimento.
O ENCONTRO COM O BREGA FUNK
“Antes do brega funk fazer parte da minha vida eu nem gostava tanto, sabe? Eu tinha um certo preconceito com toda a questão das letras, principalmente porque na época eu era cristã e nem tinha transicionado ainda, mas tudo mudou depois que vivenciei e vi como era, como que funcionava e que no fim das contas a gente ligava mais para os toques do que para as letras. O brega funk passou a ser, de fato, parte da minha vida durante a pandemia, em 2020, quando surgiu a oportunidade de participar de um grupo de brega funk, o Elite. Foi a partir daí que eu conheci, profundamente, o movimento na questão da dança e também já comecei a trabalhar produzindo.”
A IDENTIFICAÇÃO COM O MOVIMENTO
“O que mais fez eu me identificar com o movimento foi a música, porque o brega funk tem esse elemento de estar sempre em mudança, sabe? O brega funk que a gente escutava em 2016, que era um pouco mais lento, já não é o mesmo que o de hoje e a gente percebe isso sonoramente. Foi isso que me fez me apaixonar pelo movimento: saber que ele não é só o brega funk, mas sim um conjunto de vários elementos e outros ritmos.”
AS BATALHAS DE BREGA FUNK
“A energia que é a competitividade entre os grupos em competições é engraçada pois, mesmo que a gente esteja entre amigos, estamos competindo. A experiência de dançar em concursos é de uma energia que pode ir do céu ao inferno, pois depende muito de como você entra e de como você está lá dentro, porquê da mesma forma que você pode estar no pico de energia e estar gostando de dançar, também tem vezes que a gente se sente muito pesada e não consegue transmitir o que queremos, sabe? Mas o gosto de ter concluído um trabalho como esses é de uma energia massa! Só quem sabe é quem dança em quadra!”
PARA ALÉM DO BREGA FUNK
“Para além do brega funk eu já dancei outro gêneros do balé popular como frevo e maracatu, além do street dance, com o grupo Snakes Dance Crew. Acredito que o brega funk se diferencia dos outros gêneros porque ele carrega uma sensualidade. O brega funk é mais a bunda, o rebolado, movimentos que exijam quadril.”
O LADO PRODUTORA
“Eu comecei a produzir quando era bem novinha. Acho que eu tinha na faixa de uns 10 anos. Foi nessa época em que comecei a mexer no computador do meu pai, utilizando o Audacity (programa de edição de áudio e mixagem) e tudo mais. Eu fazia alguns remixes, para dançar em casa, de Beyoncé, Nicki Minaj… Quando me encontrei com o movimento brega funk comecei a fazer remixes do gênero e hoje em dia eu trabalho com cias de dança daqui e de Fortaleza, além de fazer remixes para as bailarinas de Neiff e aberturas dos shows dele também.”
A COMUNIDADE LGBTQIAPN+ NO BREGA FUNK
“Por mais que pessoas LGBTQIAPN+ dominem as questões de coreografias, de criação de conteúdo, de dar ideias de letras… ainda assim faltam mais espaços para essas pessoas serem vistas dentro do movimento. Gleycinha, por exemplo, é uma menina que poderia estar no balé de algum MC grande, famoso, sabe? Porque ela é muito boa dançando, tem presença de palco, tem tudo que outras bailarinas tem, mas eles não dão espaço justamente pelo preconceito e por não saberem como o público deles vai lidar com isso”.
“Faltam espaços para a comunidade LGBTQIAPN+ dentro do movimento brega funk, mesmo sendo essas pessoas as que mais fomentam a cena!“
“Eu acho que nós, principalmente da comunidade LGBTQIAPN+, deveríamos procurar estudar, conseguir um trabalho e fazer uma carreira paralela ao envolvimento no movimento brega funk. O que me preocupa muito é que muitas pessoas tem deixado o estudo de lado, sabe? Eu fico com medo deles entregarem tanto a vida ao brega funk e depois acabarem se perdendo, porque a gente pode muito bem estar lá em cima, mas as vezes podemos estar embaixo também, principalmente num contexto em que a comunidade ainda não é 100% aceita dentro do movimento.”