O Cinema da Fundação Joaquim Nabuco realiza neste sábado (13), às 16h20, na sala Derby, a sessão especial Chama Curtas: Faça Pior… com Fernando Peres. A mostra coloca em circulação parte do arquivo audiovisual do multiartista radicado no Recife. Gratuita, a atividade aposta em uma experiência expandida que vai além da projeção tradicional. Intervenções e ativações dialogam com a estética e o percurso de Peres. A intenção é aproximar o público do modo como o artista produziu e difundiu sua obra.
A programação exibe curtas e materiais brutos de Fernando Peres, figura marcante da cena alternativa recifense. Integrante do coletivo Molusco Lama e criador do Lesbian Bar, ele sempre trabalhou entre linguagens distintas. Seu percurso combina desenho, vídeo, performance e a noite urbana, formando uma produção híbrida e resistente a classificações rígidas. Essa atuação fragmentada e experimental o tornou um nome singular na cultura local. O arquivo agora revelado ajuda a compreender essa multiplicidade.
O acervo apresentado foi recentemente restaurado pelo projeto Tempo Bruto, que digitalizou mais de 350 fitas nos formatos VHS, Super-VHS, Hi-8 e Mini-DV. O material reúne registros de eventos, festas, performances e espaços que marcaram o Recife e Olinda no início dos anos 2000. As imagens formam um panorama histórico da cena artística daquele período. São fragmentos que mostram a construção de uma geração e suas formas de convivência cultural. A digitalização tornou possível revisitar esse universo.
Entre os registros estão momentos emblemáticos do circuito independente pernambucano, como o SPA das Artes e o Festival de Inverno de Garanhuns. Também aparecem exposições no MAC de Olinda e no Museu Murillo La Greca, além de trabalhos na Menor Casa de Olinda e no Ateliê Submarino. Bastidores e apresentações de Textículos de Mary, Backing Ballcats Barbis Vocal’s, Mundo Livre S.A., Cordel do Fogo Encantado e Jards Macalé ajudam a compor o retrato. O acervo inclui ainda a boemia e as figuras que movimentaram a vida noturna. O conjunto revela uma época que se transformou rapidamente.
Nos vídeos, Peres registra a cidade com um olhar inventivo e friccionado, interessado em modos de vida que permaneceram à margem. Ele documenta existências e gestos artísticos pouco monitorados pelas instituições oficiais. São imagens que antecedem a popularização dos celulares e preservam atmosferas urbanas hoje desaparecidas. Seu trabalho articula memórias pessoais e coletivas sem buscar normalizações. A sessão reforça essa potência ao colocar o arquivo em relação direta com o público.
A Sessão Chama Curtas é um projeto dos curadores Felipe Karnakis e João Rêgo dedicado à exibição de curtas, vídeo-arte e intervenções no Cinema da Fundação. Ao trazer o material de Peres para a sala, a iniciativa revisita uma trajetória que atravessa décadas mantendo urgência criativa. O artista constrói um universo de desenhos, anotações, delírios gráficos, fetichismos, dinossauros, grafias biológicas, frases, ironias e humor. É um repertório que se recusa à normalidade e opera sempre em atrito. A exibição reconhece esse percurso e renova sua circulação.