O espetáculo “Ayiti, a montanha que assombra o mundo” volta ao palco do Teatro Hermilo Borba Filho, no Recife Antigo, para sessão única no dia 14 de outubro, às 20h. Os ingressos custam R$ 25 (meia) e R$ 50 (inteira), disponíveis pela internet no Sympla. A peça, apresentada pelo ator e artista recifense Marconi Bispo, combina teatro, performance, poesia, dança e percussão para revisitar a história da Revolução Haitiana (1791–1804), unindo arte e memória em uma narrativa crítica e simbólica.
Marconi Bispo divide a dramaturgia com Kamai Freire, coordenador da pesquisa que inspira a montagem. No elenco, estão as atrizes Brunna Martins e Kadydja Erlen, além dos músicos Beto Xambá e Thulio Xambá, do Grupo Bongar. O projeto é autoral e independente, com produção geral de Arthur Marinho e Giovanna Teles. A nova temporada também celebra os 30 anos de carreira de Marconi, que busca, por meio da encenação, dar visibilidade à contribuição do Haiti para a luta anticolonial.
Segundo o artista, “a peça teatral é pensada como a primeira em Pernambuco sobre a Revolução Haitiana”. Ele lembra que entre todas as revoltas de escravizados, apenas a haitiana foi vitoriosa. “A insurreição dos escravos da colônia francesa de São Domingos, iniciada em 1791, resultou na criação da República do Haiti”, destaca. O projeto deve gerar novas apresentações, aprofundando a pesquisa sobre o tema.
A criação de “Ayiti” nasce da urgência em recuperar a narrativa haitiana e refletir sobre o apagamento histórico. “Em 1804, o Haiti já orientava ao mundo como devemos tratar colonizador”, afirma Marconi. Ele questiona a ausência dessa revolução nos currículos escolares e nos debates culturais: “Falar do Haiti é nossa revolução.” A proposta da obra é reconectar o público à potência política e simbólica da primeira república negra do mundo.
A pesquisa também provoca reflexões sobre as relações históricas entre Recife e Haiti. “Por que não é dito que a revolução haitiana fundou a primeira nação negra de ex-escravizados a derrotar o invasor?”, pergunta Marconi. Ele explica que sua investigação se baseia em 13 livros, entre eles Os Jacobinos Negros. “Descobrimos que a ilha onde está o Haiti era chamada Kiskeya — Mãe de Todas as Terras — pelos povos originários. Assim, vamos montando o espetáculo e se desmontando da linguagem do colonizador”, conta.
Com direção técnica de Arthur Canavarro e equipe formada por artistas locais, o espetáculo dá continuidade à trajetória internacional de Marconi, que realizou residência artística em Portugal em 2024. Além de ator, ele é pesquisador das relações raciais em Pernambuco e sacerdote de tradições afro-brasileiras. Já Kamai Freire, coautor da dramaturgia, é maestro e doutorando na Alemanha, onde investiga a espiritualidade e a música da revolução haitiana. “A Revolução Haitiana não acabou”, afirma Marconi. “Queremos compartilhá-la com quem ainda precisa fazer a sua.”