O Memorial Luiz Domingues é uma iniciativa da artista-educadora Laís Domingues para catalogar, digitalizar e compartilhar os trabalhos do avô, mestre azulejista português que viveu em Pernambuco por mais de cinco décadas. O projeto busca resgatar obras muitas vezes sem assinatura ou reconhecimento, dando visibilidade a uma produção silenciosa que permeia a arquitetura do Recife e de várias cidades do Nordeste.
Parte do trabalho do memorial envolve a recuperação de desenhos feitos em papel vegetal, reunidos em sete pastas, que compõem o “quebra-cabeça” de cada painel e azulejo criado em camadas com serigrafia. Fotografias e vídeos registram cada etapa, e uma museóloga higieniza, cataloga e digitaliza as obras, garantindo sua preservação e estudo.
“Meu avô veio de uma família muito pobre e ser artista não parecia uma possibilidade. Assim, ele nunca se considerou um artista. Nem mesmo permitia que o chamassem assim, quando, na verdade, ele sempre foi. Então, esse projeto surgiu também como uma forma de contar a história de quem dedicou a vida a produzir arte, mesmo que silenciosamente”, afirma Laís Domingues.
Luiz Domingues chegou ao Brasil em 1954, vindo de Coimbra, e trouxe consigo a tradição portuguesa na azulejaria decorativa. Trabalhou na fábrica da família Brennand antes de abrir seu próprio negócio, produzindo azulejos para residências e projetos de diferentes escalas, sempre mesclando técnica europeia e identidade local.
Seus azulejos estão presentes em prédios icônicos do modernismo pernambucano, como o Edf. Acaiaca, e em painéis como “Joaquim Nabuco e a Abolição da Escravatura”, de Abelardo da Hora, e “Revolução Pernambucana”, de Corbiniano Lins. Apesar do legado, Luiz afirmava que o mais importante era “fazer o freguês feliz”, mais que receber reconhecimento.
O projeto também busca mobilizar a sociedade civil para localizar obras espalhadas pelo Brasil, especialmente em Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Pará. “Os azulejos trazem memória e afeto. O Memorial quer que as pessoas olhem essas criações e se perguntem sobre quem fez”, reforça Laís, conectando passado, arte e comunidade através da preservação e valorização da obra de seu avô.