Pernambucano é eleito imortal em academia de letras do interior paulista

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O escritor, jornalista e comunicador Fabson Gabriel Pereira, natural do Recife (PE), foi eleito como novo acadêmico imortal da Academia Valinhense de Letras e Artes (AVLA), instituição cultural sediada no interior paulista. Aos 28 anos, Fabson passa a integrar uma academia de letras de São Paulo, levando para o espaço institucional da cultura paulista uma trajetória marcada pela formação pernambucana, pelo diálogo entre territórios e pela literatura como instrumento de escuta social.

“Eu encaro ser eleito para integrar o corpo de uma associação como a Academia Valinhense de Letras e Artes, como um trabalho que será sustentado pela responsabilidade e pela continuidade histórica, e pelo fomento à literatura brasileira”.

A cerimônia de posse de Fabson Gabriel Pereira como acadêmico imortal da AVLA acontecerá no dia 6 de fevereiro de 2026, às 19h, no Plenário Dr. Ulisses Guimarães, na Câmara Municipal de Valinhos, com entrada gratuita e aberta ao público.

Radicado em Valinhos há quase cinco anos, Fabson foi escolhido após processo estatutário que envolveu inscrição de candidatos, votação secreta e decisão colegiada dos acadêmicos. Ele ocupará a Cadeira nº 39, cujo patrono é o comunicador e artista Roque Palácio, referência histórica da cultura valinhense.

A eleição ocorreu durante reunião da AVLA que contou com a presença de 19 dos 38 acadêmicos. Também foram eleitos novos membros para o quadro da instituição, fundada em 2021, com a missão de preservar, fomentar e difundir a produção literária e artística no município.

ENTRE TERRITÓRIOS E VOZES

Natural do Recife, neto de avós analfabetos, Fabson teve a infância vivida no subúrbio de Jaboatão dos Guararapes, município berço da pátria, experiência que moldou o que mais tarde se tornaria a marca de sua escrita: a brasilidade. Segundo Fabson, foi a mudança para o estado de São Paulo que despertou, de forma ainda mais consciente, esse sentimento. Radicado em Valinhos, na região de Campinas, ele passou a atuar profissionalmente na área de marketing, enquanto a literatura permaneceu como pilar de crítica social e pertencimento, seu espaço de reconexão com suas raízes e consigo mesmo. 

Para ele, a eleição representa mais do que um reconhecimento individual: trata-se de um gesto simbólico de travessia cultural. “Sou um sonhador que escolheu a comunicação e a literatura como forma de trazer os sonhos para a vida real. Acredito em um mundo onde nossas ações valham mais do que títulos, origens ou status”, afirma.

Autor do romance “Sol e Chifre”, publicado em agosto de 2025 pela Editora Patuá, Fabson define sua escrita como um exercício de observação e registro da experiência humana. “Me vejo como um intérprete, um condensador de histórias, de pessoas e de afetos”, completa.

NOMEAÇÃO E RESPONSABILIDADE HISTÓRICA

Ao comentar sua entrada na AVLA, Fabson ressalta que encara a nomeação como um compromisso com a continuidade histórica, a responsabilidade social e o fomento à literatura brasileira, especialmente em tempos de profundas contradições. “Não existe consenso absoluto na vida, na política ou na cultura. A história do Brasil é feita de contradições, e a literatura existe justamente para atravessá-las. Não busco unanimidade, mas diálogo”, pontua.

Segundo ele, o vínculo com a cadeira nº 39 estabelece um diálogo direto com o legado de Roque Palácio, artista plural que atuou na comunicação, nas artes visuais, no teatro e no carnaval, sempre levando o nome de Valinhos às suas ações.

“A comunicação é um ponto de encontro entre mim e o Roque. E a paixão pelo carnaval também. Venho de Recife, berço da cultura carnavalesca brasileira. Há uma conexão simbólica forte aí”, destaca.

Roque Palácio foi um comunicador e artista de atuação plural que se tornou uma das figuras mais marcantes da vida cultural de Valinhos e região de Campinas (SP). Nascido em São Roque e radicado desde a infância em Valinhos, destacou-se como apresentador de televisão, organizador de eventos, carnavalesco, cenógrafo, diretor teatral, escultor e poeta, além de idealizador do Prêmio Personalidades e criador do monumento comemorativo aos 500 anos do Brasil, instalado na Praça 500 Anos. Seu trabalho esteve sempre ligado à valorização da cultura local e à projeção do nome de Valinhos, legado hoje preservado por homenagens institucionais, como o Centro Cultural e Artístico da Terceira Idade que leva seu nome.

POSSE E PRÓXIMOS PASSOS

A cerimônia de posse de Fabson Gabriel Pereira como acadêmico imortal da AVLA acontecerá no dia 6 de fevereiro de 2026, às 19h, no Plenário Dr. Ulisses Guimarães, na Câmara Municipal de Valinhos, com entrada gratuita e aberta ao público.

Para 2026, o escritor pretende ampliar a circulação de sua obra, participar de encontros literários, desenvolver ações de formação de leitores e dar continuidade à produção literária. “O que me move é formar leitores, atravessar gerações e criar pontes entre territórios”, afirma.

Como começou a escrever?
Meu primeiro contato com a literatura veio ainda na infância, por meio dos gibis do Chico Bento que eram do meu pai. Eu não entendia tudo, mas gostava das imagens, das cores, e cheguei a colar os gibis na parede do quarto. Aos sete anos, vi uma máquina de escrever no Centro do Recife e pedi à minha mãe. Quando vi aquela Olivetti pela primeira vez, senti como se estivesse me reconectando com algo muito antigo dentro de mim. Ali comecei a escrever de forma intuitiva, como quem descobre um lugar de pertencimento.

Sua profissão?
Sou jornalista, comunicador, profissional de marketing e escritor. Ingressei no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco aos 17 anos, sendo o primeiro da minha família a estudar em uma universidade federal. Atuei como repórter no Diario de Pernambuco. O jornalismo, especialmente durante o início da pandemia, foi decisivo para minha formação humana e literária.

Quais experiências marcaram sua formação?
Cobrir a pandemia como repórter foi uma das experiências mais duras da minha vida. Lidar diariamente com mortes, medo e vazio nas ruas deixou marcas profundas. Vi o Recife em pleno Carnaval completamente deserto. A literatura foi o espaço que encontrei para elaborar tudo isso, para transformar dor em reflexão e seguir em frente.

Qual a inspiração do seu livro Sol e Chifre?
Sol e Chifre nasce da observação das relações familiares, especialmente da ausência e da busca por afeto. É um livro sobre pertencimento, sobre heranças emocionais e sobre o Brasil que atravessa gerações dentro das casas, muitas vezes em silêncio.

Qual sua expectativa como imortal da Academia Valinhense de Letras e Artes?
Encaro essa eleição como responsabilidade e continuidade histórica, não como status. O que me move é fomentar a literatura brasileira, formar leitores e fazer com que mais pessoas leiam, jovens, adultos e idosos. Quero ser um aliado nesse processo.

Qual ensinamento foi mais valioso da literatura?
A literatura me ensinou a perceber o mundo do outro. A ver o outro, o tempo e as contradições do mundo. Ela me mostrou que escrever é um trabalho, mas também um gesto de redescoberta.

Quais suas referências literárias?
Minhas referências vêm de muitas vozes. Para escrever Sol e Chifre, por exemplo, minhas referências máximas foram Solo para Vialejo, de Cida Pedrosa, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, como obras que me atravessaram profundamente.

Sente falta de Pernambuco?
Pernambuco é parte de quem eu sou. Mas estou feliz onde vivo hoje. Carrego o Recife comigo na forma de ver o mundo.

Quem é o Fabson fora do trabalho e longe da literatura?
Sou uma pessoa simples e observadora. Gosto de conversar e de caminhar sem pressa. Boas conversas sempre me alimentaram. Gosto de ler, andar de bicicleta, correr, ir à academia, passear no parque, no lago. Ir ao cinema!

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