Depois de conquistar sete Oscars com Oppenheimer, Christopher Nolan decidiu voltar seus olhos para uma história escrita há quase três mil anos. A escolha pode parecer inesperada à primeira vista, mas basta olhar para boa parte dos grandes filmes de aventura lançados nas últimas décadas para perceber que A Odisseia nunca deixou de influenciar a forma como essas histórias são contadas. As informações são do Almanaque Geek.
O longa chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (16) e coloca Matt Damon no papel de Odisseu, rei de Ítaca que tenta voltar para casa depois da Guerra de Troia. O caminho, porém, está longe de ser simples. Entre monstros, deuses, tempestades e perdas, o personagem enfrenta uma jornada que se estende por vinte anos e acaba mudando completamente quem ele é.
Mais do que adaptar um dos textos mais conhecidos da literatura, Nolan recupera uma narrativa que continua servindo de base para inúmeras produções do cinema, da televisão, dos games e até dos quadrinhos.
O motivo é simples: muitas das histórias que consumimos hoje nasceram ali.
A ideia do herói que precisa deixar sua casa, enfrentar desafios sucessivos, perder aliados e voltar transformado aparece em franquias como O Senhor dos Anéis, Star Wars, Harry Potter e em diversos jogos eletrônicos. Mesmo quando o público não conhece Homero, acaba acompanhando histórias construídas a partir de elementos que ele ajudou a consolidar séculos atrás.
Mas reduzir A Odisseia a uma aventura mitológica seria ignorar aquilo que faz a obra permanecer relevante. Odisseu nunca foi o guerreiro mais forte da Grécia. Sua principal arma sempre foi a inteligência. É ela que permite escapar do Ciclope, enganar inimigos e sobreviver em situações nas quais a força física simplesmente não resolveria o problema.
Ao longo da viagem, porém, o personagem também erra. A impulsividade, a vaidade e o desejo de provar seu valor acabam prolongando seu retorno para casa. É justamente essa combinação entre virtudes e falhas que mantém Odisseu distante da imagem do herói perfeito, tornando sua trajetória muito mais humana.
Essa característica também ajuda a explicar por que Christopher Nolan decidiu adaptar o poema agora. Em boa parte de sua filmografia, os protagonistas carregam marcas profundas das próprias escolhas. Foi assim com Leonard, em Amnésia, Bruce Wayne, na trilogia Batman, Cooper, em Interestelar, e J. Robert Oppenheimer, em seu filme mais recente. Todos são personagens que precisam conviver com as consequências de suas decisões.
Em A Odisseia, Nolan encontra um protagonista construído exatamente sobre esse mesmo conflito.
Para dar vida ao rei de Ítaca, Matt Damon passou por uma preparação física intensa antes do início das gravações. O ator perdeu peso e deixou a barba crescer durante meses para acompanhar visualmente o desgaste físico de alguém que passa duas décadas tentando voltar para casa.
Ao seu lado, Tom Holland (Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, Uncharted) interpreta Telêmaco, filho de Odisseu. Enquanto o pai enfrenta monstros e tempestades, o jovem cresce acreditando que talvez nunca mais o veja novamente. Sua busca pelo paradeiro do pai acaba se tornando uma narrativa paralela importante dentro da história.
Anne Hathaway (Interestelar, Os Miseráveis) vive Penélope, personagem que sustenta o reino de Ítaca durante a longa ausência do marido. Cercada por homens interessados em ocupar o trono, ela precisa encontrar maneiras de adiar uma decisão enquanto mantém viva a esperança de que Odisseu ainda esteja vivo.
O elenco também reúne Zendaya (Duna, Euphoria) como a deusa Atena, principal aliada de Odisseu durante sua jornada. Robert Pattinson (Batman, Mickey 17) interpreta Antínoo, líder dos pretendentes que ocupam o palácio de Ítaca, enquanto Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria, Atômica) assume o papel de Calipso. Já Samantha Morton (The Walking Dead, Ela) interpreta Circe, uma das figuras mais marcantes da mitologia grega.
Entre os nomes confirmados ainda estão Lupita Nyong’o (Pantera Negra, Um Lugar Silencioso: Dia Um), em papéis ligados à Guerra de Troia, Jon Bernthal (O Justiceiro, O Contador 2) como Menelau, Benny Safdie (Joias Brutas, Oppenheimer) como Agamenon e Bill Irwin (Interestelar, Legion) interpretando o temido Ciclope Polifemo.
Uma das escolhas mais curiosas do elenco é a participação do rapper Travis Scott, escalado como um bardo. A decisão faz referência aos primeiros séculos da própria obra de Homero. Antes de ser registrada por escrito, A Odisseia era transmitida oralmente por narradores que percorriam cidades contando suas histórias. Nolan aproveita essa tradição para estabelecer um diálogo entre esses antigos contadores de histórias e artistas da música contemporânea.