Com participações que vão da carioca Letrux aos franceses Laetitia Sadier, fundadora da celebrada banda franco-britânica Stereolab, e Hervé Salters, também conhecido como General Elektriks, como batizou seu projeto musical, além de nomes recifenses como Sofia Freire, a Mombojó reafirma um quarto de século de indie pernambucano, mas amplia seu olhar para o mundo;
Primeiro disco de inéditas do grupo após seis anos celebra a música e a conexão ao longo de oito faixas; o trabalho retoma a parceria com o produtor
Léo D, que marcou o celebrado disco de estreia “Nadadenovo”, agora com olhar expandido para outros indies

Seis anos depois do projeto que deu som ao filme “Deságua”, de Luan Cardoso – último registro de inéditas do grupo -, a banda recifense Mombojó chega com “Solar”, seu novo disco de inéditas, disponível nas plataformas digitais no próximo dia 24 de abril. Banhado pelo sol de Recife e embalado por referências que vão de ritmos do interior do estado a produtores de países europeus, a Mombojó tece um caminho ao mesmo tempo familiar e novo, trazendo o olhar fresco e a maturidade dos anos.
Gravado entre 2023 e 2024, o projeto traz de volta a longeva parceria com o produtor Léo D, que integrou o celebrado disco de estreia do conjunto, unido a nomes pernambucanos, como a cantora Sofia Freire e o cantor e instrumentista Nailson Vieira, a carioca Letrux, e músicos como Domenico Lancellotti, além de nomes-referência de fora do país, como Laetitia Sadier, da banda franco-britânica Stereolab, e os produtores franceses Hervé Salters (General Elektriks) e Anthony Malka (Le Commandant Couchê-tout).
Ao longo de oito faixas, o samba e a música popular se fincam como raízes para apresentar novos sons, com inspirações psicodélicas e experimentais. “Solar”, se mostra, então, como o clima perfeito para a nova fase da banda, abrindo as portas para a luz entrar, e convidando o público a entrar na dança.
Paisagem sonora
“Recife, além de ser nossa cidade, é também de onde tiramos muitas das nossas referências musicais e estéticas. Nesse trabalho atual, sentimos muito essa conexão. Lugares ensolarados trazem naturalmente uma energia dançante e de festa”, conta Felipe S., vocalista do Mombojó. As canções que constroem o álbum não são somente uma forma de trazer Recife para perto, mas também celebrar a passagem do período da pandemia da COVID-19, no qual o isolamento entre as pessoas tornou-se regra. “Todas elas carregam essa vontade de botar a cara no sol, sair pra dançar e se misturar com as pessoas. As músicas funcionam quase como remédios para aquele sofrimento”, explica.
O disco começou a ser preparado em 2023, em um processo fluido de compartilhamento de ideias; cada faixa com o seu próprio ritmo de criação. Sobre o processo, Felipe S. compartilha: “Hoje em dia, o mercado da música muitas vezes nos empurra para a pressa, para estar o tempo todo lançando novidades. Isso é algo que me incomoda. Eu gosto de insistir nas ideias, de maturar os repertórios e dar tempo para as coisas encontrarem seu lugar.”

Faixa a Faixa
O disco abre com “Quero Amanhecer”, apresentando o tom acolhedor e dançante que guia as oito faixas. Com os sintetizadores do produtor francês Anthony Malka (Le Commandant Couche-Tôt), a canção soa, ao mesmo tempo, familiar e psicodélica. Nela, dois versos ajudam a pintar a paisagem do disco como um todo: “Encosta o bucho quente bem em frente a mim”, evidenciando a essência pernambucana da banda, e “Pois viver só não está com nada”, que abraça o caráter coletivo que guia o trabalho do grupo e a experiência de “Solar”.
“Sob o vento forte” é uma parceria com China, que invoca a força da natureza em relação à ação humana. Considerada uma música-manifesto pela banda, aprofunda as referências psicodélicas sonoras com o destaque para a guitarra elétrica e a voz e trombone da cantora francesa Laetitia Sadier, integrante da banda Stereolab – referência para o Mombojó.
O single “Mergulhando no Mar” traz as raízes do samba, já fincadas pela banda, com a roupagem psicodélica que guia o disco. Aqui, o mar é sinônimo de leveza, boas energias e tranquilidade.
Na sequência, “Em Cima da Areia” traz o trombone de Naílson Vieira, trombonista, cantor e mestre de Maracatu Rural para o centro da faixa, que apresenta o ritmo da Ciranda, tradicional da cultura popular de Pernambuco. De letra simples, a canção é uma parceria de Filipe S. com sua filha Pilar, de seis anos. Com a participação de Quéops Negrão Negronski nas vozes, a faixa invoca a união coletiva na atração da energia positiva para o centro dessa ciranda.
Faixa mais pop do disco, “Abaixo a Realidade” conta com a participação de Letrux, uma composição em parceria com Anderson Foca, membro da Camarones Orquestra Guitarrística (RN). A voz de Letrux agrega a um hino que brinca com o cansaço de uma geração que busca não mais um mundo equilibrado, mas o conforto. Sua sonoridade traz referências do indie, unida a um groove fácil de se embalar.
“É O Poder da Dança”, primeiro single do disco, sintetiza as referências contemporâneas da banda – como o grupo turco-holandês Altın Gün – e a sonoridade dançante. A psicodelia do som encontra a letra, que destaca o potencial libertador da dança. “A faixa é um abre-alas leve para o disco, apresentando um belo groove, mas não mostrando toda a diversidade musical do álbum”, conta a banda. O projeto visual do disco foi iniciado com o videoclipe da faixa, uma parceria com o produtor e designer William Paiva, figura já conhecida na história do Mombojó.
“Em Plena Sexta-Feira” surgiu da união de melodias e grooves pré-existentes de diferentes membros da banda. O resultado é uma faixa mais espontânea e incomum, que sai do formato canção presente no álbum, pintando paisagens sobre a dificuldade da realidade trabalhadora brasileira. A letra é uma parceria com o cantor Lucas Afonso.
O disco fecha com “Canudo de Luz”, parceria de Felipe S. com Domenico Lancellotti. A faixa, gravada anteriormente no disco de estreia do Trio Eterno, projeto de Felipe com André Édipo e Missionário José, agora ganha uma nova roupagem: o francês Hervé Salters (General Electriks) colabora nos sintetizadores, a cantora pernambucana Sofia Freire marca presença nas vozes, e Domenico Lancellotti está também na bateria. A inspiração do groove remete aos sucessos antigos de Tim Maia. “‘Canudo de Luz’ reafirma a vocação do Mombojó para o trabalho coletivo e colaborativo, integrando diferentes artistas ao processo criativo e expandindo as nossas possibilidades musicais”, explica a banda. O disco se encerra, então, com um pôr do sol — “ainda com uma vibração solar, mas de forma mais contemplativa”, conforme aponta o vocalista Felipe S.
Novos ares
Com vinte e cinco anos de estrada, Mombojó tem um público fiel que o acompanha – da Eurotour recente à noite dividida com a banda Móveis Coloniais de Acaju no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Com “Solar”, Felipe S. espera que a experiência da música compartilhada possa continuar a sua mágica: “nos shows, queremos trazer as músicas mais calmas e contemplativas, e ter o momento de mais vibração e catarse. Espero que seja algo prazeroso também pra quem for ouvir em casa — que dê vontade de dançar em qualquer lugar”. Como o nome diz, “Solar” chega como luz e calor a quem deixa as janelas abertas, e convida os olhos e ouvidos atentos a compartilharem a experiência.

SOLAR | Mombojó
(Felipe S., Chiquinho, Marcelo Machado, Vicente Machado e Missionário José)
Produção, mix e master: Leo D
Gravação: Mathias Severien (Estúdio Pólvora, Recife/PE)
Gravações adicionais: Iran Ribas (Estúdio Veredas, São Paulo/SP) e Leo D (Estúdio Moringa)
Design gráfico: William Paiva
Fotos: Olivia Leite
Figurino: Carli Rosas
Felipe S. – Voz e guitarra
Marcelo Machado – Guitarra, percussão e backing vocals
Chiquinho – Teclados, sintetizador e backing vocals
Vicente Machado – Bateria e percussão
Missionário José – Baixo, sintetizador, violão tenor e percussão
Imprensa: dobra comunica
Distribuição: Strm Music
- Quero amanhecer (feat. Le Commandant Couche-Tôt)
- Sob o vento forte (feat. Laetitia Sadier)
- Mergulhando no mar
- Em cima da areia (feat. Nailson Vieira)
- Abaixo a realidade (feat. Letrux)
- É o poder da dança
- Em plena sexta-feira (feat. Lucas Afonso)
- Canudo de luz (feat. General Elektriks, Sofia Freire e Domenico Lancellotti)