Amanda de Souza transforma fotos antigas em novas narrativas de mulheres negras em “Cidade das Mestras”

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Aberta ao público desde 14 de novembro, “Cidade das Mestras” apresenta a pesquisa de Amanda de Souza sobre arquivos coloniais que moldaram a representação de mulheres negras. As fotografias dos séculos XIX e XX ganham nova vida por meio de pinturas digitais inspiradas em mestras espirituais da Jurema Sagrada. Ao transformar registros de domínio em imagens de força e autonomia, a artista cria outros caminhos de leitura. A exposição pode ser visitada na Torre Malakoff, no Recife, até 8 de fevereiro de 2026.

Ao reabrir acervos historicamente tratados como documentos fixos, Amanda desloca essas imagens para o campo da tradição, da fé e do imaginário. Suas composições articulam ancestralidade, tecnologia e resistência, reativando arquivos que ganham novas leituras. O público é convidado a refletir sobre o poder das narrativas visuais na construção da memória. E a imaginar futuros possíveis a partir desses registros transformados.

A exposição amplia a pesquisa iniciada em “A sua casa não tem porta e nem janela”, reconhecida pela reaproximação da Coleção Francisco Rodrigues a debates contemporâneos. A curadoria de Cleonardo Mauricio Junior, antropólogo do Museu Nacional (UFRJ), acrescenta densidade etnográfica às obras. Ele articula epistemologias negras, cosmologias afro-indígenas e modos de reconstruir histórias silenciadas. Assim, reforça o papel das mestras espirituais como guardiãs de memória.

Ao reposicionar as mulheres presentes nos registros coloniais, Amanda devolve a elas a autonomia retirada pelo olhar dominante. “Essas mulheres foram fotografadas em um contexto de dominação, mas, ao trazê-las de volta como mestras espirituais, devolvo a elas o poder de narrar suas próprias histórias”, diz. A exposição rompe fronteiras ao integrar recursos digitais, camadas espirituais e memória ancestral. E aponta caminhos para reinterpretar arquivos que continuam influenciando nossa percepção do presente.

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